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Varejistas intensificam controle de fornecedores PDF Imprimir E-mail
Seg, 19 de Setembro de 2011 18:31
Com o cerco das autoridades às grandes redes varejistas que fazem negócios com terceirizadas que exploram seus trabalhadores, muitas empresas já começaram a agir de forma preventiva para evitar abusos entre seus fornecedores.

A Lojas Marisa, que tem 277 unidades espalhadas pelo país, contratou uma empresa para vistoriar as condições estruturais de seus fornecedores diretos e indiretos.

“Em 2010, foram feitas 487 auditorias. E em 2011, até o momento, já foram realizadas 315 auditorias”, diz Roberto Sampaio, diretor de compras da rede.

A Collins, acusada de contratar 78 oficinas irregulares entre janeiro de 2009 e junho de 2010, agora tem dois profissionais para avaliar o cumprimento de direitos trabalhistas por seus mais de 100 fornecedores ativos.

E a Riachuelo, que faturou R$ 3,1 bilhões em 2010, produz 80% de suas peças em uma indústria própria, diz Reginaldo Limeira, gerente de relacionamento com fornecedores.

Os 20% restantes vêm de 74 confecções de todas as regiões do Brasil. Limeira é o chefe do departamento que monitora as oficinas em visitas periódicas.

De São Paulo, sai metade das 700.000 peças vendidas por mês pela Lojas Avenida, maior rede da região Centro-Oeste. A empresa não tem auditoria, mas o presidente, Rodrigo Caseli, diz que está em fase de contratação.

Consultada por Infosurhoy.com, a Lojas Renner não disse como monitora seus fornecedores. A empresa recentemente colocou ações à venda e obedece ao período de silêncio imposto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A Pernambucanas, autuada por irregularidades esse ano, tampouco respondeu às solicitações da reportagem.

Mas as duas empresas são signatárias do programa de qualificação de fornecedores lançado pela Associação Brasileira de Varejo Têxtil (ABVTex) em setembro de 2010.

A ABVTex reúne 1.400 lojas de vestuário, que respondem por 15% do mercado nacional.

Com o programa, a associação pretende capacitar, formalizar e auditar 10.000 fornecedores e subcontratados em todo o país até o final de 2013.

Esses fornecedores são majoritariamente micro e pequenos empresários, diz a ABVTex.

Para ser qualificadas pela ABVTex, essas empresas precisam atingir pontuação final mínima de 70% em critérios como:

  • liberdade de associação dos funcionários
  • zelo contra a discriminação, abuso e assédio
  • cuidados com saúde e segurança do trabalho
  • conformidade com documentação, horas trabalhadas e benefícios
  • monitoramento da cadeia produtiva e meio ambiente.

O cumprimento dos critérios é certificado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Bureau Veritas Quality International (BVQI), Intertek e SGS.

A ABVTex não quer punir pequenos empresários e, muito menos, trabalhadores irregulares. O objetivo é qualificá-los, pois os fornecedores que não conseguirem chegar ao grau mínimo para vender aos associados da ABVTex podem rever suas práticas e depois solicitar uma nova auditoria.

Outra signatária do programa da associação é a holandesa C&A. A empresa foi a primeira do segmento a assinar o Pacto Nacional Pela Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em 2005 pela ONG Repórter Brasil, Instituto Ethos e outras entidades.

A C&A criou a Organização de Serviço para Gestão de Auditorias de Conformidade (SOCAM), um sistema de auditoria própria e independente que fiscaliza a cadeia produtiva desde a plantação do algodão até a chegada das roupas às 190 lojas da rede, informa a empresa.

Padre Mario Geremia, da Pastoral do Migrante em São Paulo: “Não passa pela cabeça da maioria [dos imigrantes] que se trata de trabalho escravo, porque eles veem o resultado [financeiro]. Eles são vítimas de um sistema injusto.” (Thiago Borges para Infosurhoy.com) (Thiago Borges para Infosurhoy.com)

Padre Mario Geremia, da Pastoral do Migrante em São Paulo: “Não passa pela cabeça da maioria [dos imigrantes] que se trata de trabalho escravo, porque eles veem o resultado [financeiro]. Eles são vítimas de um sistema injusto.” (Thiago Borges para Infosurhoy.com) (Thiago Borges para Infosurhoy.com)

Desde 2006, a C&A realizou cerca de 8.000 vistorias a mais de 500 fornecedores e 2.000 oficinas – metade delas no estado de São Paulo.

Imigrantes temem pedir ajuda

O casal Nelson, de 32 anos, e Paula, 25, também cruzou fronteiras em busca de uma vida melhor no Brasil. Como ainda estão em situação irregular, ambos preferem não revelar o sobrenome.

Natural de Bogotá, capital da Colômbia, Nelson é engenheiro de telecomunicações. Já Paula, de La Paz, capital da Bolívia, é técnica em desenho industrial.

Depois de passarem pelo Peru sem encontrar trabalho, eles desembarcaram em São Paulo em 13 de maio.

Enquanto Nelson procurava emprego, Paula imediatamente começou a trabalhar em uma oficina de costura irregular na Vila Guilherme, zona Norte de São Paulo.

Paula e o marido podiam dormir e se alimentar na oficina com os outros sete funcionários da empresa – todos bolivianos. Mas a comida e a hospedagem eram descontadas do salário de cerca de R$ 600,00 – duas a três vezes inferior ao que ganham os empregados brasileiros, segundo a Pastoral do Migrante, uma entidade ligada à Igreja Católica que presta auxílio a estrangeiros.

Mesmo grávida, Paula cumpria expediente de segunda a sábado, das 6h30 às 23h30.

Após três semanas de exploração, o casal pediu abrigo na casa mantida no centro de São Paulo pela Pastoral do Migrante.

Mas muitos imigrantes que enfrentam o mesmo que Paula e Nelson sequer procuram ajuda.

“Eles aceitam a clandestinidade porque têm medo de perder o pouco que conquistaram”, diz Grover Calderón, diretor da Associação Nacional de Estrangeiros no Brasil (Aneib).

Para tentar sanar o problema na origem, Brasil e Bolívia assinaram um acordo em 2005, facilitando a regularização de imigrantes do país vizinho.

Quatro anos depois, com a chamada Lei da Anistia Migratória (1.664/2009), o governo brasileiro autorizou a regularização de todos os estrangeiros que estavam em situação ilegal e haviam entrado no Brasil até 1º de fevereiro de 2009.

Ainda assim, a exploração persiste.

Muitos dos costureiros continuam sem carteira de trabalho assinada, segundo o padre Mario Geremia, coordenador da Pastoral do Migrante. Eles preferem continuar morando e comendo nas oficinas a terem de arcar com aluguel, transporte e alimentação.

Diferente de Nelson e Paula, que têm formação acadêmica, a maioria dos imigrantes são pobres e sem instrução, completa o padre. O pagamento que recebem no Brasil pode ser baixo para os padrões do país, mas equivale a três salários mínimos na Bolívia, por exemplo.

“Não passa pela cabeça da maioria deles que se trata de trabalho escravo, porque eles veem o resultado [financeiro]”, diz o padre Geremia. “Eles são vítimas de um sistema injusto.”

Nelson e Paula aguardam a finalização de seu processo de legalização no Brasil. Ele tem emprego assegurado em uma empresa de telefonia, e ela estuda português e pretende cursar design de moda no Centro Universitário Senac em 2012.

O bebê deve nascer dezembro.

Pelo menos para os dois, o sonho está perto de se tornar realidade.

 
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